domingo, 15 de janeiro de 2017

O Culto do Lobo





 "No andar resoluto, indicava a ação precisa de uma pessoa que afinal de contas, sempre procurou viver o que ela era, nos seus defeitos e virtudes, sem rodeios ou falsas modéstias. Mas, definitivamente, eu passara a acreditar de sua resolução afigurar não apenas como a  da vontade humana. Tornava-se uma parte da Deusa para mim, um modelo a ser seguido e o mais cedo que pudesse.

Ao vê-la  percorrer a pequena trilha até a beira do represado, onde passamos parte da madrugada, indo para o que seria o seu último contato e partilha com  as outras mulheres-lobas, senti tocar-me um doce e frágil perfume dos ares atravessadores das grandes distâncias, como desses  ventos anunciadores das mudanças constantes. Envolvendo-me completamente  na quietude e na tranquilidade dos momentos  do profundo sentir a vida e o viver. 

Com a  certeza interior que uma parte de mim desaparecia incondicionalmente agora, desaparecia  sem  trégua e sem conflitos, desprovida mesmo de qualquer tristeza ou alegria. Existindo somente a ternura que não pude  vivenciar anteriormente por, em realidade, não me ter dado qualquer chance de vivenciá-la com liberdade, isto como sabia pelo enraizamento da minha vaidade, orgulho e  medo.  Vindo a acreditar por muito tempo que poderia continuar na loucura de uma vida sem sentimentos ou envolvimentos profundos. Estaria,  certamente, condenada a uma esterilidade que nem os grandes desertos possuem. Por sorte, a vida foi bem maior do que minha loucura.

Se cheia ou vazia não  podia medir... No entanto, em tudo e para todas as coisas,  sentia nessa hora o desabitar-me. Restando-me apenas,  o inesperado assombro comigo mesma, na surpresa de uma vida sem mistérios, simples e inquietantemente razoável.."


Trecho do livro, O Culto do Lobo de Carlos França

http://www.carlosfranca.com/ 

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