segunda-feira, 20 de abril de 2009

A menina e o jequitibá

Ouvia-se uma história contada por uma sábia e singela voz de um velho fazendeiro, que numa aquecida noite de verão soprou-se uma suave e delicada brisa perfumada, o que o levou até a janela por onde pode contemplar o flutuar de algo que lhe parecia um floco de neve, observou atentamente aquele ponto luminoso a aproximar-se dele e o viu adentrar no quarto. Olhando-o admirado temeu que se dissipasse ou mesmo que derretesse pela alta temperatura... E quieto observou o pequeno floco repousando sobre um também pequeno berço, afirmando ele que nesse momento de total admiração o pequeno floquinho passou a irradiar prateada luz ofuscante, transformando-se logo em seguida em um alvo e sorridente bebê de olhos celestes, cabelos cor de ouro e lábios em forma de coração, vermelhos como pétalas de rosas.

Essa foi a primeira visão que teve do seu iluminado floco de neve. Primeira mas não a ultima, pois passou a acompanhar todos os próximos passos do seu bebê-neve que não se derretia ao sol. Dali em diante o sábio fazendeiro passou a apresentar e a ensinar ao seu pequeno floco tudo o que de mais belo e admirável ele conhecia. Matas com grandes arvoredos, campinas verdejantes, pomares coloridos, as mais belas quedas d’águas, grandes rios, pequenos ribeirões, animais de todas as espécies e o importante significado de palavras como humildade e respeito passaram a fazer parte da rotina da pequena criatura que extasiada absorvia a tudo de forma inesperada e inexplicavelmente profunda, não tardando a se familiarizar com todas aquelas visões que pouco a pouco não só iam sendo apresentadas a ela como também passavam a ser parte dela, que sedenta sorvia de toda aquela atmosfera natural, fazendo-a acreditar que era realmente parte de tudo aquilo. E a cada instante a pequena criaturinha descobria e absorvia mais um detalhe, amando profundamente a todas as descobertas desejando cada vez mais estar diante de toda aquela espécie rara de contemplação.

E volta e meia perguntava-se: - Não há neve aqui, de onde ao certo eu me desprendi?

O pequeno corpo sentia o ressoar de seu interior como ecos de uma alma antiga a habitar-lhe e sua atenção vislumbrava a presença de mais de um mundo, dentro e fora, misturando-se, unificando-se ao seu maior “eu sou” sem nem ao menos conhecê-lo ainda. E instintivamente passou a desejar decifrar sua quieta-inquietação. E tão logo percebeu que seus olhos eram capazes de vislumbrar realidades paralelas às que vivia e por entre campos e clareiras nitidamente percebia tudo o que era transparente aos que simplesmente olhavam sem absorver. Vislumbrava fixamente caminhos invisíveis interpostos entre grandes e majestosas arvores, fazendo-a deleitosamente perder-se sem se perder em meio a toda aquela verde imensidão por onde sua alma vagava indefinidamente multiplicada.

Enquanto parte sua olhava admirada à sombra oculta da pomposa gameleira, outra parte tocava com a face dos dedos o tronco do jatobá a sentir sua textura rústica repleta de séculos enraizados, ao mesmo tempo em que seu olfato perscrutava a essência escondida da canela já percebendo o seu olor futuramente engarrafado. E os sabores estavam todos a impregnar sua parte alma-paladar, o cítrico das pitangueiras e laranjeiras, o adocicado das mangueiras, o néctar inebriante dos caquizeiros, o azedo suculento dos umbuzeiros, o apimentado das canelas e cravos e o abraço apertado ao céu da boca dos cajueiros e cajazeiras a aprisionar-lhe de sabores, como gotas de prazer a pingar em seu eterno viver... Todos os preparos apanelados e ainda pior, os enlatados, foram completamente bombardeados por todas aquelas nuances de hálitos indefinidos... Queria devorar a cheiro, cheirar o gosto e ver as cores dos sabores... Enquanto isso, sua parte alma-ave sobrevoava sobre a mata num desejo de descobri-la infinita...

Foi quando pela primeira vez o avistou, atraindo todas as suas outras partes à visão daquela longínqua e gigantesca existência... Um jequitibá transpirando eternidade... Por um instante tudo parou e sentiu agarrarem-se de volta a seu corpo infantil todas as suas partes de idades diferentes, a alma- olfativa agarrou-se ao seu braço esquerdo, a alma-auditiva ao direito, e sucessivamente a alma-paladar a um de seus pés e sua alma-tato ao outro, enquanto a sua alma visionária agarrou-se ao seu corpo impulsionando e elevando-o como asas e como por extinto e intuição guiava-a desenfreadamente rumo à clareira, desafiando a realidade do espaço e velocidade... Apenas ia, livrando-se dos obstáculos que por vezes a açoitava para traz, não sendo nada o suficiente para fazê-la parar... Ao longe escutava o canto das aves e o sussurro dos animais assustados a observar-la no ímpeto de entender qual outra espécie de bicho era aquela que mais parecia à união de todos eles... As características selvagens afloravam fazendo-a sentir-se muitas outras, completamente ela em totalidade...

A sua agilidade e leveza doava-lhe características aladas adiantando-se entre as fadas que sapecavam de brilhos o seu caminho, elfos tentavam ultrapassá-la enquanto os gnomos para ela torciam e diziam: - Chegar é pertencer e pertencer é possuir! E por vezes o caminho perdia-se sob o nevoeiro da caipora que enciumada, com seus pés contrários tentava confundi-la, mas confundiu-se a si mesmo tendo que fugir de diante da menina-floresta cujo da misteriosa mata parecia ter o mapa... E tinha! Pois não obstante avistou e deleitosamente ela finalmente parou, encheu-se completamente de todas de si mesma e estagnada fixou o seu olhar ao centro da clareira... O tempo cedeu a si próprio e perplexo parou e o silêncio da criança era sorriso que de seus poros esvaia. O olhar fixo, iluminado, soltou a sua melhor gota que levemente e lentamente flutuou em direção aos lábios sedentos da terra a aguarda-lhe o seu saborear... Sua alma tato desejou o deslizar de dedos sobre seu tronco estendendo um de seus braços em sua direção... Ali estava ele... Olhava-o como à seu próprio “reflexo”... Seus lábios balbuciaram o nome cujo sabor a língua colhia atando-o como a uma estrela ao céu da boca. E que universo de precioso passado, extasiante presente e deslumbrante futuro se resumiam ali, naqueles segundos furta-cor... O espaço tornou-se folha de um verde ofuscante, o tempo raízes esculpidas como braços a agarrar-se a terra e o viver era eternidade absoluta em seu tronco de mil abraços diante de seu pequenino mais extenso e profundo olhar...

Tudo tornou-se uma fração do que realmente desejou e no anseio de adentrá-lo abraçou-o unindo as forças de todas em si, agarrando-o com seus pequeninos braços que se multiplicaram no momento em que seus cinco sentidos deram-se as mãos, atando-a a aquela existência-fortaleza mais castelo do que todos os contos de fadas poderiam construir... E ali permaneceu por longa paralisia temporal, enquanto absorvia aquela louca consciência de si própria. Ao estagnar do laço de braços sentia-se o querer soluçar cheio de coisas existentes entre a realidade e a ilusão, sentindo-se absorvida ser, completamente... De repente, sentiu-se acarinhada por gotas que das folhas da grande arvore emergiam... Como gigantes lágrimas pingavam, gotejavam sem chover tocando-lhe os cabelos sem encharcá-los, alcançando a sua alma núbil. Pequenos frutos e folhas passaram a desafiar a lei da gravidade (ou o já havia sido desde o inicio) e flutuavam roçando os seus braços, colando-se a sua pele, entrelaçando-se a seus dedos como mãos que buscam o seu lugar e uniram-se tornando-se ambos um só, unificados naquele doce sonho arvorecido...

Ela sentia o estremecer do coração, a respiração ofegante e o acalento do corpo ao aninhar-se em suas raízes... E como no mais esperado abraço adormeceu, ninada pela sonata da mata, com o lençol sombra a aquecê-la, lembrando-se que breve cairia à noite e a luz do sonho adormeceria. Ela queria aproveitar cada minuto. Cada instante, mesmo que breve, teria em cada fração a presença da eternidade. Diante daquela presença imponente ela sentia-se ainda menor, "pequena", o que também a fazia sentir-se protegida, e pertencente a ele, o seu "grande" jequitibá, de forma ainda mais intensa... Sabia que aquele contato material seria breve ao mundo físico, mas já podia sentir a dimensão do “felizes para sempre”em seu lacônico e ao mesmo tempo “sem fim” conto de fadas... E adormecida, só queria estar ali... Aquele lugar era a sua “terra do nunca”, estando uma única vez ali, trancados estariam eu seu mundo de sentires únicos e desconhecidos “para eternamente”... Ela tinha certeza disso...

Abriu os pequenos olhos e viu ao longe o abismo que estendia-se entre eles, entre ela e seu jequitibá, sentiu-se desaninhada, mesmo que protegida. Olhou as mãos e nelas estavam os resquícios do entrelaçar de outrora... Pequenas partículas de madeira nas unhas e na pele envolvidas em gotas vermelhas que os dedos choravam traziam a confirmação do mistério que eternamente habitaria em seu interior, ou mesmo no exterior, ao olhar-se no espelho em seu próprio reflexo... Agora os braços que a envolviam e a carregavam descansadamente eram outros e a voz serena, mas temerosa demonstrou que de alguma forma estava alheio a toda aquela unitividade vivenciada, dizendo: - O que farei com esse meu bichinho-neve? O amor não me permite devolver-te ao lugar de onde veio... E encaminhada foi ao seu habitat nada natural e do lugar onde estava passou a visitar outras terras procurando incanssavelmente estar mais uma vez diante de sua "grande"arvore. E enquanto as paredes de seu quarto fragmentavam-se a floresta transportava-se para lá formando clareiras em seus pensamentos onde seres elementais contavam-lhe suas historias e trazia-lhe noticias de seu frondoso jequitibá e a pequena por fora frágil-neve tornou-se por dentro forte-jequitibá. Temendo um dia ser-lhe proibido o recordar, voltava sempre em partes de si às raízes que a aninharam rogando-lhe: - Não posso estar em ti mas para sempre estejas em mim, temo não poder recordar-me vindo o futuro-passado e querer ser no futuro o que no passado fomos em mim, sendo que serei uma vida fingindo que a outra nunca havia existido... E o amável e sábio jequitibá apenas balançava os seus galhos-braços à pequena alva criança sussurrando-lhe: - crescerá, assim como eu o fiz, mas em mim sempre estará, assim como eu em ti!

Dedicado ao meu pai, Nelson Cerqueira Muniz e ao meu eterno e "gigante" jequitibá!

Dica Cardoso


10 comentários:

Helena disse...

Belissimo texto mocinha!Me fez viajar por entre as mais belas matas e florestas!O teu pai deve ser um grande homem.A prova está aí,Você e todos essa senssibilidade e delicadesa que demostram serem frutos não só de muitos estudos e dedicação como tambêm de uma mágica e bela infância ao lado um sábio e dedicado pai!
Espero que ele ainda viva para contemplar por longos anos os frutos doados pelo seu pequeno "floco"!
Parabêns aos dois!
A natureza agradece!

Anônimo disse...

Todo artista tem uma obra-prima, sem duvida ainda escReverá muitas outras...mas....no momento essa é a sua!
Linda.
De sua fã...C.V.T.A.M.!

Inaiá disse...

Bom texto! Tem uma vêia ecológica forte!Esse e muitos outros!Vc faz parte da natureza,sem dúvida!
Gostei!

Platão(FÃ) disse...

Você não só faz parte da natureza!!! Você "é" um fenômeno da natureza, eu ja sabia disso! A descoberta é: Qual fenômeno tu és? Alva neve que não derrete nascida em pleno verão? Tempestade de sentires em pleno sertão? Lua amanhecida na alvorada erguida? Furacão de emoção que nos trava o coração? Especié de plata e bicho em eterna extinção? Terna dúvida que me faz desejar os segredos de tua existencia desvendar!

Maria(UFBA) disse...

Parabêns!
Parabêns!
Parabêns!
O longo que nos prende,nos faz querer mais,nos faz pedir:Por favor,diga que não acabou!!!
Sem palavras,menina selva,sem palavras!
Parabêns!Bastam as tuas...

Fê disse...

Menina!Você é um gênio...rsrs!Encantador!Como pode fazer isso comigo?Me emocionou criatura!
Nada de opniões frias e técnicas.Aqui vai a do coração,você merece!MA-RA-VI-LHO-SO!Me fez desaguar coisinha!Vontade de cuidar!
ôh bichinho,volta pro mato!
Amo você ainda mais!
Beijos

Cris disse...

Texto encantador!Cheio de vida,de verde,de coisas que os dias de hoje não conhecem!Deixas aqui bem claro o quanto nós,seres humanos, poderiamos sermos melhores se ao menos tentasse-mos!O teu sentir faz com que percebamos que és um pedacinho de cada coisa!TERRA-AR-ÁGUA-FOGO!Riquesa de detalhes e palavras!
Parabéns!

GILVANCY disse...

DICA, você realmente é uma dica DIVINA para todos nós que não conseguimos enxergar o belo nas coisas mais simples, porem
sensíveis e de uma singela simplicidade.
raízes profundas raízes em solo fértil. Simplesmente linda.

Luzía(Movimento ecológico-SP) disse...

Que sorte teve vc de ter um pai assim,cuidadoso,sábio e que te apresentou um mundo de tanta aventura e naturalidade!Que sorte teve seu pai de ter uma filha assim com essa indescritível senssibilidade tornando possível assim a absorção instantânea de todas as belas coisas que lhes foram apresentadas e ainda mais os seus mistérios ocultos,como os do jequitibá,que só uma alma de artista poderia captar!Onde quer que ele esteja(seu pai),sei que se orgulha do fruto doce e mágico que brotou de sua pequena semente!Você!
Procura-se "verde" no google,encontra-se você,filha da mata!
Parabéns!

Ronilson disse...

Nada melhor para felicita-la do que uma canção para piano, essa linguagem vc entende bem...
http://www.youtube.com/watch?v=r38f9uQeOt4
Bjo.

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